Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Águas Frias - Rua da Paz

Ontem foi dia de matar saudades. E não era caso para menos. Já não ia a esta santa terrinha desde o Natal, o que, convenhamos, é um tempão. Pois é, a vida nem sempre nos deixa fazer aquilo que nos apetece e, por muito que nos custe, vamos tendo que protelar alguns dos episódios que a consubstanciam, umas vezes em prejuízo de uns e  outras  em benefício de outros. Só assim se leva a água ao moinho.

A verdade é que, sempre que me é dada essa possibilidade, aí estou eu a rumar desde a Terra Quente até ao frio da nossa aldeia. E ontem era um daqueles dias em que até me parecia de bom tempo, já que, saindo do nevoeiro que ainda não deixou de cobrir Valpaços, acabei por me deleitar com o bonito dia que a nossa região indicava ter, com um sol radioso que iluminava o casario que se avistava ao longe. Mas eis que, com aproximação, feita a partir de Chaves, começo a perder de vista o nosso vetusto Castelo. De facto, empurrado não sei por quem, o tal nevoeiro que eu pensava ter deixado para trás, foi-se aproximando do nosso roqueiro e, de repente, como que o esmagou contra a montanha donde sabemos que emerge. Aí estava aquele  que nos habituámos a chamar, sabe-se lá por que carga de água, o "ceguicho da terra quente", um nevoeiro que, vindo de onde vem, da Terra Quente, é mais frio que o do vale de Chaves. Mas deixemos as explicações acerca disso para os entendidos, aqueles em que muitos não acreditam mas que fazem um trabalho científico muito meritório, os meteorologistas.

Pois bem, apesar de tudo, como o dito não desceu até à aldeia, o sol que a iluminava convidava a uma voltinha. Dei comigo, então, a passar pela escola, que tratei de "escugitar" conveneientemente, e tomei a Rua de Cimo de Vila, inflectindo, depois, para a Rua da Paz, exactamente essa que hoje me traz aqui. Ao começar a descê-la senti um grande aperto. Para além de não ver nada que bulisse - será possível nem sequer se ouvir o trinar de um passarito? -chamou-me a atenção o estado de degradação das casas que outrora foram habitadas, as casas onde viveram famílias que, ou por terem partido para sempre ou por os seus descendentes se terem deslocado para outras paragens, ma deixam a impressão de estarem definitiva e inexoravelmente abandonadas. E lembrei-me dessa imagem do nevoeiro sobre o Castelo, parecendo-me que, também estas habitações, estão a ser esmagadas pelo tempo.

 

 

Nesta viveu a família do senhor Tóninho Terruz. Os filhos emigraram. O Manechinho creio que continua em França, à procura do seu sustento e da família. Construiu uma habitação de férias junto ao campo de futebol. Não sei exactamente o que é feito dele, pois, já não o vejo há muitos anos. A Júlia, que também esteve emigrada, já há uns anos que vive com o marido, o Zé do Ti Américo Barbeiro, também nas proximidades do campo de futebol. Finalmente, a Beatriz, confesso que não sei mesmo o que é feito dela. A verdade é que a casa onde julgo terem nascido e onde viveram tantos anos está como a foto documenta.

 

 

Aqui viveu a família Gonçalves, Bruno e Hortênsia. Foi talvez das primeiras casas desta rua a serem desabitadas. Admira-me como é que não há um neto ou bisneto que se lembre de pegar nisto e lhe dê melhor destino que o de ir caindo aos poucos.

Mas a Rua faz, de facto, jus ao nome. A Paz, aqui, é total. A última casa a ser habitada também já perdeu os seus moradores, ainda que, desta feita, não esteja absolutamente abandanada à sua sorte. Durante muito tempo, após a morte do meu tio Antero, a tia Balbina ainda aí permaneceu. Mas, com o Manuel em Chaves, o João em Vila Verde da Raia e a Maria Augusta em terras algarvias, não teve alternativa, ou seja, como acontece à maior parte dos nossos idosos, teve que ser internada num lar, neste caso, o de Mairos, perdendo-se desta forma a última resistente ao esmagamento da Rua da Paz.

publicado por riolivre às 16:07
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7 comentários:
De ÁguasFrias a 21 de Janeiro de 2008 às 22:07
É com alguma desilusão que se vêem algumas casas em estado de abandono. Todas elas já tiveram história, viveram-se muitas vidas com muita Vida. Alguma ou muitas serão as razões para tal estado. mas que é uma pena, lá isso não há dúvida, até porque algumas caracterizam a tipicidade da construção da região e as Pessoas que as habitaram fazem, enequivocamente, parte da História de Águas Frias.
De Tupamaro a 22 de Janeiro de 2008 às 22:57
É sempre com muita expectativa que aguardamos pela próxima crónica de "Rio Livre".

Os seus textos são soluços de tristeza e de saudade que tocam a alma de quem os ouve e de quem os escuta, mesmo à distância.
Consigo transporta com doçura e prazer as saudosas lembranças do torrão natal.
Fala-nos desse seu pedacinho de céu como se ele fosse do tamanho do paraíso.
Era esse encanto que nós gostaríamos de ver a brilhar nas palavras e nas acções dos nossos governantes!
Os lugares carregadinhos de História, onde a Vida, tantas vidas, tiveram expressão de sublimidade, por mais ventos e tempestades que as assolem, por mais desprezos e esquecimentos que suportem, envolvem sempre os seus filhos, e os seus visitantes, em harmoniosa musicalidade soprada pela brisa dos seus céus, vibrada pelo tremor delicado das suas sebes e florestas, e ecoada pelos hinos dos seus guardiões.
Um momento, ou um dia, ou um tempo, que neles se passe embriagam-nos sempre a alma com sentimentos de misteriosa doçura e encanto.
E é assim que nós, o senhor e eu, e outros como nós, sentimos e expressamos o amor pelo nosso buraquinho natal, ou adoptivo, sempre envolto em sedosos tecidos de respeito, de ternura e de saudade!
Nas NOSSAS ALDEIAS, o Nascimento era uma alegria comungada por todos.
E nesse dia até a Pobreza parecia mais rica do que a Riqueza!
E o coração umbilical daquele chão, daquele ar, e daquele céu jamais poderá, ou poderia, ser cortado!
A NOSSA ALDEIA! O Nosso Cantinho! A NOSSA TERRA!

RIO LIVRE!
De Liberdade de expressão, de pensamento e de sentimento!

Tupamaro
De Abel a 16 de Agosto de 2008 às 10:43
Parabens pelo seu comentário...Não pude deixar de sentir uma enorme tristeza ao recordar aquelas imagens. A minha esposa que é de lisboa e que muito gosta de rumar aquelas paragens apelidou essa rua de "fantasma"por ser um lugar sombrio e degradado.Abel
De Abel a 17 de Agosto de 2008 às 12:05
Volto a este assunto,pelo facto, de ser uma das pessoas que pretende voltar a aldeia,e que tem procurado, nos dois últimos anos, adquirir uma casa, para reconstruir ,e que por diversas razões, não tem conseguido.No dia 1 de Agosto, eu e minha esposa ,partimos de Lisboa - para umas merecidas férias - com a "espinhosa"missão ,de não voltar a Lisboa de mãos a abanar,ou seja ,sem adquirir um cantinho para aí reconstruir.Sabiamos que não seria fáçil.A motivação era muita.Passamos os dias ,levantando cedo, percorrendo as ruas da aldeia, e anotando tudo o que esta em ruínas.O passo seguinte, era procurar identificar a quem pertenciam, ou quem poderia dar informações sobre as mesmas.Algumas ,os proprietários não vendem - nem reconstroem - talvez a espera que valorizem!!!!Outras porque pertencem a vários herdeiros - e estes não se entendem - tambem não estão acessíveis...Outras os proprietários - ou herdeiros - pedem verdadeiras fortunas, para o que resta do imóvel.Nisto passamos uma semana de férias... Ao fim de todas estas "portas" se terem fechado - e como a persistençia compensa, - lá se abriu uma "janela"pequenina ,mas o suficiente para continuarmos a respirar, e a acreditar que era possivel.Motivados por esta hipótese e porque os envolvidos são pessoas que se preocupam com o estado das casas degradadas e que tambem querem uma aldeia mais aprazível,o entendimento foi rápido.Podemos assim voltar a Lisboa ,com o sentimento de missão cumprida, e felizes por em breve, podermos contribuir para que uma casa em ruínas, volte a embelezar aquele espaço.Urge que quem de direito e responsabilidade olhe para esta situação e desencadeie os mecanismos legais para que todos aqueles que procuram renovar e dar um ar mais bonito e limpo a aldeia o possam fazer.Abel
De accteixeira a 14 de Fevereiro de 2008 às 23:51
A verdade é mesmo esta... pelas nossas aldeias não faltam casas atiradas ao abandono... E pelos vistos todos nós sentimos pena em ver a Nossa Terra assim...

um abraço
Eirense
De algarve a 24 de Fevereiro de 2008 às 12:04
A irmã da Júlia e do Toninho não é a Beatriz, mas sim a " Ondina mora em Vila Verde, bem pertinho do Açude,--
De riolivre a 24 de Fevereiro de 2008 às 18:27
Olá Guida!
Obrigado pelo reparo. De facto, eu próprio não tinha a certeza do nome (já me falha um pouco a memória) mas ainda bem que esclareceste algo que eu não queria que acontecesse, ou seja, trocar os nomes das pessoas. As minhas desculpas à Ondina e a promessa de que não voltarei a cometer a gaffe.
Já agora deixa-me aproveitar para dizer que o nome da rua também já não corresponde ao que era. Não se chama já Rua da Paz mas Rua Dr. Álvaro Gomes, esse senhor que era filho da D. Minda e que vivia no Porto.
Beijinhos.
Tino

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