Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Águas Frias - A matança

Andava para aqui a tiritar de frio, que ele demorou mas acabou por chegar mesmo e,  com a geadona que um destes dias nos recebeu logo pela manhã, dei comigo a pensar sobre como estaria tanta gente a pensar que, finalmente, poderiam agendar a matança que, como bem sabemos, exige muito frio para que se deva realizar em boas condições. Hoje, é claro, estando sempre de olho na ASAE, não se lembrem os ditos de vir por aí arriba e mandar prender toda a gente. Proponho que essa gente seja absolutamente proibida de cheirar, sequer, qualquer alimento proveniente do nosso muito apreciado artesanato.

E foi a pensar exactamente nessa festa que a matança encerrava noutros tempos que me lembrei de procurar algum documento fotográfico que andasse aqui por casa. Valeu a pena. Acabei por topar uns retratos que, embora não sejam de grande qualidade, servirão, ainda assim, para alguns se reverem e, sobretudo, para relembrar algo que, infelizmente, começa a fazer parte de um conjunto de elementos etográficos da nossa aldeia que se vão perdendo.

 

 

Este belo exemplar que podemos observar é uma reca que foi "cevada" com as melhores rações tradicionais em casa do meu tio Filipe. Chamavam-lhe "soberana" porque, depois de fazer uma criação, ainda permaneceu em casa por mais um ano, em engorda, tendo atingido o interessante peso de 357 Kgs. Era, de facto, uma ceva de peso. E, em Dezembro de 1987, acabaram-se-lhe os dias.

 

 

Momentos antes de um grupo de homens a tentarem agarrar, a Maria Alice, sob o olhar atento do pai, adoça-lhe a boca pela última vez, na tentativa de a acalmar. É que o bicho foi mesmo difícil de segurar.

 

 

Aqui já o Zé Alexandre tinha conseguido meter-lhe a corda no focinho, única forma de a fazer chegar junto do banco onde viria a expiar.

 

 

Confesso que foi uma pena não ter captado essa luta que foi mantida com o animal por uma série de homens que, finalmente,o conseguiram deitar e segurar sobre um banco onde já haviam perecido inúmeros antepassados.

 

 

Como em qualquer crime bem perpretado, a faca e o alguidar são, como se sabe, indispensáveis. Neste caso coube ao Zé Alexandre (antes era o meu tio Regedor) segurar aquele enorme facalhão que esperou o ano inteira para, desta feita, penetrar o pescoço da enorme reca, acertando em cheio no seu coração, enquanto a Maria Alice segurava o alguidar onde o sangue ia sendo mexido para, dali a pouco, nos podermos deliciar com esse verdadeiro petisco em que a cozedura o transforma (uma parte dele, contudo, fica reservada para fazer as "sangueiras", essa deliciosas chouriças com que ainda nos podemos regalar).

 

 

Havia agora que chamuscar o bicho, tarefa que coube ao Samino e ao Dinis (o Dinis, infelizmente, já nos deixou). Enquanto o Samino vai queimando o pêlo com o "faxuco" de palha, o Dinis, com uma faca, vai raspandoa pele para, de seguida, se proceder à lavagem do animal, esfregando-o com água e umas pedras de granito. Neste momento estou a imaginar o que aconteceria se um qualquer desses defensores dos animais presenciasse uma cena deste tipo. Eu até pagava para ver.

 

 

Depois de bem lavado, volta ao banco para ser aberto na zona da barriga. É nesta fase que se obtem a carne que vai dar origem a mais essa especialidade culinária que são os "rijões". A tarefa das mulheres, agora, é colocá-los no pote grande onde vão rijar até constituirem esse suculento e bem merecido almoço.

Entretanto o reco é pendurado na vertical, de cabeça para baixo, sendo-lhe retiradas a tripas, que as mulheres vão "estremar", que o mesmo é dizer, separar, para, posteriormente, irem lavar (antigamente isso fazia-se em zonas dos ribeiros onde a água corresse, de preferência, em fragas com alguma inclinação.

O animal ficava nesta posição durante alguns dias, para que o gelo tomassse conta dele sendo, depois, "desfeito", isto é, partido com a mestria de quem aprendeu com os de antanho, separando as carnes do fumeiro (para a sorça) e as pás e os presuntos para a salgadeira.

 

sinto-me: Guloso
publicado por riolivre às 18:14
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5 comentários:
De Tupamaro a 4 de Dezembro de 2007 às 22:47
Mais uma deliciosa prosa, cujo enorme defeito reside no crescer de água na boca com que nos castiga, a nós e a todos.
A nós, também faz crescer saudades de tempos já muito recuados em que desfrutámos do encanto desse ritual da «matança do reco» e dos prazeres que consolavam a barrigota e confortavam o coração.

E não leve(m) a mal que aqui confessemos a nossa comoção ao lermos este bilhete de identidade Transmontano-Tamegano!

E dê(em)-nos licença para lembrar uma descrição, também encantadora, de um nosso conterrâneo, João Madureira, e que vem no seu livro “Crónica Triste de Névoa” (páginas 52/3/4/5).

E seja-nos permitido referir a valiosa e interessante reportagem que a TVBarroso nos oferece na NET, acerca da Matança do Porco em Paredes do Rio, com uma oportuna entrevista ao Presidente da Junta de Freguesia de Covelães do Rio, realizada pela graciosa jornalista barrosã, Margarida Luzio.

E, aí por Chaves, esses ocupadíssimos edis distraídos e desinteressados da verdadeira Causa Pública, nem com os bons exemplos de ao pé da porta aproveitam para aprender!

E façam o favor de nos desculpar o «E» intencional, que não bíblico, mas, antes, sinal da nossa afectividade pelas honradas tradições e costumes da Nossa Terra, e pelas nossas gentes.

Com um bocadinho de inveja dos que por AÍ estão «nestas alturas», felicitamos o autor deste belíssimo postal Tamegano-Aquafrigidense e desejamos bom proveito aos afortunados.

Tupamaro
De ÁguasFrias a 5 de Dezembro de 2007 às 19:19
Perfeita (como sempre) a descrição desta actividade tão característica das Nossas Aldeias e que, como dizes "começa a fazer parte de um conjunto de elementos etnográficos da nossa aldeia que se vão perdendo."
Tão perfeita que me fizeste recordar, como se de um vídeo se tratasse, as matanças que assisti e minimamente participei na casa dos meus sogros.
Era um dia de muita labuta mas também de alegria,sempre carregada de pequenas peripécias, desde o tentar agarrar o reco, até ele cair do banco depois da faca espetada,...
E o sangue cozido, e os rijões, e ...
Bom, ... conseguiste fazer-me recuar no tempo e trazer-me muitos flashes da minha memória.
Um grande abraço amigo
Mário Silva
De joao afonso RIO. brasil a 20 de Dezembro de 2007 às 04:00
caro patrício , esquecestes da cena de miúdos a chutar a bexiga inflada como bola de futebol... abraços.
De riolivre a 22 de Dezembro de 2007 às 00:03
Meu caro amigo,
De facto, à falta de melhor, quantas bechigas não substituiram as bolas de futebol durante muitos e muitos anos. A arte aguça o engenho e aqui por Águas Frias também tinha que se usar a inteligência para tornear o impossível.
Boas Festas para si e para toda a comunidade natural ou descendente desta aldeia e que se encontra na diáspora brasileira.
Um abraço.
Celestino Chaves
De Dinis Ponteira a 9 de Dezembro de 2007 às 21:35
Magnifica reportagem da martança do porco,

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