Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
XVI Encontro da Blogosfera



publicado por riolivre às 09:49
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011
S. Caetano

 

Motivos de vária ordem impediram-me de manter viva a chama deste espaço de confraternização. Espero, a partir de agora, ser menos intermitente neste projecto, sobretudopara não defraudar aqueles que vão insistindo em aturar-me, fazendo o link para um sítio onde, afinal, não tem havido vida.

 

E nada melhor para o reinício do que vos deixar com um texto de um amigo, que também é muito amigo da nossa terra, e que gira à volta do S. Caetano, lugar onde, no passado domingo, passou um imenso grupo de pessoas, ligadas à blogosfera flaviense, em mais um dos já habituais encontros de verão.

 

A foto "roubei-a" ao meu amigo Fernando Ribeiro.

 

 

 

“Maldição de S. CAETANO(?)”

 

É Verão.

Todos os frutos da Natureza sabem que nem um regalo!

E o cabrito, e o cordeiro e o frango assadinhos no forno, que bem apaladados se apresentam, depois do delicado trato dos nossos amigos cozinheiros e amicíssimas cozinheiras!

E não é que a «pinga» de qualquer Adega de um vizinho, ou Regional, da NOSSA TERRA «fica mesmo a matar» com aquele especial molho, onde as batatas assadas envernizam aquela cor coradinha que só os fornos e a lenha daquelas Terras sabem dar?!

Por ali, “come-se que nem um abade”, e “bebe-se que nem um camelo”!

É de admirar?!

Nem por isso!

O sorriso franco e os braços abertos com aquelas gentes nos recebem abrem-nos     -     e de que maneira!   -   o apetite.

E a franqueza é sempre tão grande que até nos fazem juntar a sobremesa com a ceia!

Os simples e os modestos, como nós, só têm uma maneira de mostrar o seu reconhecimento: levar o carro e o coração carregadinhos de amizade.

O pior é que nos acontece sempre «o pior»   -   o nosso regresso é feito com a alma cheiinha de mimos e a mala do carro ou a cabina e a caixa da carrinha atulhadas com saborosas lembranças!

Catancho!

“Incréu” como somos, até nos custa ter de acreditar que o S. CAETANO costuma fazer milagres!

 

É Verão.

E o fresco de uma sombrinha “que bem que sabe”!

E o S. CAETANO com ela abençoa os seus devotos em visita.

E até os passeantes que por lá andam, e «fazem escárnio» das milagrices que lhe atribuem!

Há uma boa meia dúzia de decénios que lhe fomos apresentado pela nossa AVÓ, num Dia de Festa!

Porque não tivemos «o garrotilho»; porque fomos curado das «sezões»; porque ficámos bom do braço partido (tri-partido!) com aquela enorme turra do carneiro irritado com «A Corneta de S. Caetano»; lá fomos, pela mão d’AVÓ, agradecer-lhe estes milagres!

A ele, S. CAETANO, tão sábio, tão rico e tão poderoso, iam, e vão, os pobres e os pobrezinhos levar «a esmola»!

E, como se não bastasse a longa caminhada, desde o termo de Samaiões, ainda tivemos de «esturricar» ao sol, carregadinho com as roupas, a coroa e a estátua, a cruz ou o ramo que nos davam o ar e a figura de «ANJINHO», numa procissão mais lenta do que «passo de boi»!

 

É Verão.

E hoje lá fomos ao “S. CAETANO”, recordar as promessas (da AVÓ) por nós cumpridas, e cobrar o prazer de sombrinha, ora apetecida.

Próximo do banco onde, de olhos fechados nos parecia melhor apreciarmos a sombra e o sossego do lugar, e com mais harmonia e emoção desfilariam aquelas recordações distantes, dois casais de «velhotes», mais ou menos da nossa idade, conversavam filosoficamente.

Trocavam histórias de milagres de amor, de saúde e de sorte.

-….“Nunca mais deixa de ser burro”!  - ouvimos. E ficámos com a atenção desperta.

-“’Ind’à semana passada fomos bisitar o Delfim, que está entrabado numa cadeira de rodas, Estábamos eu, ele, a mulher, a filha e o genro, cá fora de casa, ao fresco.

O rapaz…

-O rapaz!  - exclamou, e interrompeu, uma voz feminina (que presumimos ser da Rapariga que o orador tomou por Mulher, provavelmente no altar do S. CAETANO).

-Ele debe ser da nossa idade, ou até mais «belho» um pouco!   -   acrescentou a «madama».

-Bem, «Rapaz» foi uma “forma de dezer”.

O Rapaz vinha despedir-se.

Como lhe tinham prometido umas saladas, deixou a mala do carro «a direito» do portão, que já estava aberto.

Estava a filha do Delfim a dizer que esperasse um bocadinho, enquanto ia buscar as alfaces   -   que até eram de duas “calidades”   -  quando rompe por meio de nós, que estábamos sentados à roda do Delfim, o filho do Jeremias e da Teresa, genro e filha do Delfim e d’Augusta.

«Nem água “bem”, nem água “bai”».

“Quer-se dezer”: nem bom-dia, nem boa-tarde.

Fez questã” de meter o carro dentro do pátio. E como tebe de fazer duas ou três manobras para entrar, ficou muito incomodado.

Bai daí”, o cumprimento dele, birando-se para o que «nunca mais deixa de ser burro», foi resmungar que «aquela biatura  estaba  mal estacionada».

Ele queria meter o carro «cá dentro» e «quase que nem podia»!

Todos ficámos com cara de parbos!

O Jeremias, pai do garoto, ficou mais «marelo» do que a cera.

A Teresa “afucinhou”  a cabeça no chão, e disse que ia buscar umas «curgétes».

A mulher do Delfim, a Ti’Augusta, ficou mais corada do que um pimento bermelho do Cambedo.

A mim, deu-se-me cá uma bolta no’stômago!

O que «nunca mais deixa de ser burro» ia para se alebantar para ir arrumar o “carroço”.

- “Agora já não é preciso. Já consegui entrar” – sentenciou, no mesmo tom zangado e refilão, o neto do Delfim e filho do Jeremias.

E sumiu-se dentro de casa.

A avó desabafou:

-Não façam caso. As autoridades são sempre assim!

Afinal, somos todos bu---rros!

Qualquer labrego que «entre prá Guarda ou prá Polícia» fica logo com a mania de que “tem o rei na barriga”.

E até acha que a consideração que as pessoas têm pela sua família não é mais do que a sua obrigação   -   porque ele «é gê-éne-érre», «impõe respeito» e «têm que lhe mostrar medo»!

- Tamém! Não precisas de exagerar!  -  atalhou a mulher.

- Pois não!

Mas se fosse cá eu, com os conhecimentos, amizades e família que ele, o que «nunca mais deixa de ser burro», tem lá em Lisboa, ‘inda por cima na Guarda, ai não, que não punha este fedelho a «piar fino»!

Quantos da NOSSA TERRA, que estão por esse mundo fora, bisitam tanta gente na Aldeia; telefonam para tantos, no Natal e na Páscoa; se alembram dos anos deste e daquele; e, lá onde estão, recebem, e dão apoio, aos amigos e bizinhos como esse «burro»?!  - sentenciou o companheiro que se tinha mantido atento e caldo durante a conversa.

Não quisemos ouvir mais.

Abandonámos a nossa sombra.

Virámo-nos para a Igreja do S. CAETANO e exclamámos cá para dentro:

- Como pode haver gente tão soberba, tão «ordinária», e a mostrar tanta falta de respeito, cá pelas bandas de S. CAETANO?!

Ou será que será gente das vizinhanças de S. DOMINGOS?!

Não é na Natureza, no sol ou na chuva, no frio ou no calor, nas subidas ou nas descidas, nas noites ou nos dias; com os lagartos e as cobras, com os ursos ou os leões, com a petinga ou as baleias que se nos azeda a vida.

Ela azeda-se-nos na relação com o “OUTRO”  -   o ser humano!

Sentimos a hora amaldiçoada. Regressámos a casa.

Afinal, a arrogância salazarenta ainda medra por !...

 

 

Romeiro de Alcácer

 



publicado por riolivre às 11:55
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2010
Festas de 2010

As datas comemorativas, mesmo as que para os investigadores da História não sejam absolutamente consensuais, são, do meu ponto de vista, marcos da nossa cultura que, depois de tantos anos, não devem merecer qualquer alteração. E foi por isso que não me pareceu muito bem a ideia de mudar a festa da aldeia para o mês de Agosto. De facto, o nosso padroeiro é celebrado em todo o mundo católico no dia 29 de Junho, data provável em que, no longínquo ano de 64 d. C., Pedro, o primeiro Papa, terá sido martirizado; data, também, em que os seus restos mortais terão sido trasladados para as catacumbas  de S. Sebastião, decorria o ano de 257.

 

Contudo, ao segundo ano da mudança, e como o padroeiro parece não se mostrar nada agastado com isso, também eu devo assumir que valeu a pena e que nunca é tarde para dar razão e, sobretudo, os parabens, àquele ou àqueles que conseguiram, com este evento, dar vida à nossa aldeia moribunda. É com muita alegria que se vê a imensa felicidade que invade os corações daqueles que só se vêem de ano a ano ou, em tantos casos, há muitos e muitos anos. É exactamente um pequeno registo de alguns desses momentos que aqui quero deixar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Para o ano não se esqueçam de voltar. Enchamos a aldeia de vida. Nem que seja uma vez por ano. Assim, ela não morrerá.

 

 


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publicado por riolivre às 11:48
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Domingo, 25 de Julho de 2010
FESTAS EM HONRA DE S. PEDRO

A  mudança da data da festa parece que veio para ficar. Se as gentes corresponderem como nas festas do ano passado a aposta está definitivamente ganha.

 

Aqui fica o cartaz com o respectivo programa que o Mário Silva, a quem tenho de ficar grato, fez o favor de me enviar.

 



publicado por riolivre às 22:26
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Segunda-feira, 12 de Julho de 2010
Encontro da blogosfera

No passado sábado, assim de repente, quase parecia que a nossa terra tinha passado a ser um povo de muita gente. Que o diga o Rique quando, logo pela manhã, viu o seu café invadido por quase quatro centenas de forasteiros, vindos de uma série de sítios, mas todos com o concelho de Chaves como marca de registo.

Pois, foi exactamente com uma visita à aldeia que os participantes no encontro de verão da blogosfera flaviense iniciaram este encontro que já se vai realizando há uns anos a esta parte e que cada vez conta com mais aderentes.  Águas Frias e as suas gentes sentiram-se muito honradas com estes visitantes inesperados e receberam-nos com a simpatia que os caracteriza.

 

 

À hora do almoço tocou a reunir no espaço de lazer do Castelo que, antecipadamente, graças ao nosso presidente da Junta, Romeu Gomes e à indispensável acção do senhor presidente da Câmara, Dr. João Baptista, teve a intervenção de alguns operários municipais para que lhe fossem dadas as condições necessárias à sua utilização. Bem hajam por isso. Pena foi que a agenda de ambos não tivesse permitido que nos honrassem com a sua presença.

 

 

À sombra dos lindos carvalhos foi estendida a mesa uqe depressa se encheu de convivas.

 

 

 

 

 

Mas, afinal, quem animou esta malta toda foi o excelente almoço com que a equipa do Quim Ruço nos deliciou. A rapaziada matou a fome comendo um cordeirinho assado cá da aldeia e à nossa moda e ficou tão avezada que prometeu voltar. Têm, portanto, o Quim, a Irene, a Guida, a Julia e o Leonel que ficar de atalaia e preparados para o que der e vier. Eu só tenho que lhes ficar muito grato pelo imenso trabalho que  tiveram para que toda esta gente saísse daqui satisfeitíssima. Muito obrigado a esta excelente aquipa.

 

 

 

 



publicado por riolivre às 00:04
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Sábado, 26 de Junho de 2010
Encontro de verão da blogosfera flaviense

Este ano a blogosfera flaviense (e não só, uma vez que alguns valpacenses já fizeram questão de estar presentes!) decidiu que o  encontro de verão tivesse lugar nos nossos domínios. O local escolhido foi o Castelo de Monforte e todos os aquafrigidenses irão ficar muito satisfeitos por ter sido escolhida a sua terra para tão importante evento.

Vamos certamente recebê-los como só nós sabemos fazê-lo.

Sejam bem vindos às Terras de Monforte!

 

 

Foto de Fernando Ribeiro

 

 

Nota: As inscrições também podem ser feitas para  celestinochaves@sapo.pt



publicado por riolivre às 15:56
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Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
Lampaça II

Prometi que voltaria aqui com a Lampaça e, como gosto de cumprir, cá estou para mais uma pequena incursão por esse bairro quase despovoado que, como referi no post que lhe dediquei anteriormente, já teve uma densidade demográfica impensável.

 

Contígua àquela que outrora foi a casa de Francisco Oliveira (o muito conhecido Feluje) e Clotilde Pires fica uma outra, também em ruinas, que conheci como a casa da minha tia Felisbina (ainda a chamamos assim) e que foi a habitação dos meus bisavós Alexandre e Ofêmea, o primeiro, irmão da Felisbina. Também aí foi criada uma prole imensa e, mais tarde, serviiu de morada a alguns dos meus primos, filhos do meu tio Maximino, cuja casa de habitação era muito próxima desta. Como tantas outras, também foi abandonada ao tempo e, como não poderia deixar de ser, uma boa parte dela não resistiu

 

 

 

 

Como tantas outras, também foi abandonada ao tempo e, como não poderia deixar de ser, uma boa parte dela não resistiu. Algumas paredes foram colapsando e até os sabugueiros encontraram aqui espaço para se reproduzirem.

 

 

Felizmente, continua a haver gente de Águas Frias ou, de alguma forma ligada à aldeia, que mantém essa importantíssima aposta na construção ou reconstrução de casas para férias, para fins de semana, ou mesmo para passar uma boa parte da vida pós reforma. O Abel Costa é um desses heróis. Interessou-se pelo espaço, adquiriu-o e iniciou, imediatamente, a obra. Mas a vida tem vicissitudes com que, muitas vezes, não contamos, e o Abel teve de abdicar do sonho de regressar à aldeia de que tanto gosta. Todavia, perante este impedimento, logo um dos irmãos se interessou em negociar a casa. Vamos, pois, ter mais uma reconstrução e todos ficaremos mais ricos por podermos contar com alguém que ajuda na luta contra o despovoamento e mesmo contra o possível desaparecimento da nossa terra.

 

Mas, voltando à casa que venho descrevendo, vale a pena constatar que, à entrada do pátio,  permanece o antigo forno, que terá sofrido obras de recuperação há uns anos a esta parte pela mão do malogrado Samino.

 

 

 

A casa dos pais da Rosinha do Nel tem frente para o mesmo largo da anterior. Pensar nesta casa faz-me lembrar como há gente que nos obriga a regredir. De facto, temos um governo que tem tomado medidas, umas atrás das outras, sempre a por em causa a nossa região, na tentativa de destruir esta parte do território nacional para que tudo se encaminhe para o litoral, esvaziando-nos de um conjunto de equipamentos que sempre foram considerados fundamentais para quem teima em viver por cá. Uma dessas medidas foi exactamente a que teve a ver com o fecho da maternidade do hospital de Chaves, obrigando asa nossas mulheres a ir parir a Vila Real. E o que acontece? As ambulâncias passaram a ser maternidades ambulantes e os bombeiros parteiras. E tudo isto a propósito da casa da "Tia" Lucinda porquê? Porque foi graças ao auxílio desta grande mulher que eu e tantos outros pudemos nascer, com as condições da época, e sobreviver, uns mais que outros, mas sobreviver. Ela era a parteira que, há sessenta anos, ajudou a minha mãe a parir-me. Hoje, estamos quase de regresso a esse passado.

 

 

Deixo ainda uma foto da entrada das traseiras da casa que, mais tarde, foi habitada por Arnaldo Pires e Marília Lopes e que, actualmente, também é pertença do Abel Costa. A porta que se vê ao fundo é a entrada para o lagar do meu tio Maximino.

 



publicado por riolivre às 23:23
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Sábado, 3 de Abril de 2010
Na encosta do Castelo de Monforte

 

Há dias, numa das minhas pesquisas na net, a propósito do topónimo "mornegra", nome por que designamos uma parte do nosso termo, descobri um texto sob o título que aproveitei para este post. E se constituiu uma agradável surpresa para mim encontrar uma alusão à nossa aldeia num site de BTT, muito mais agradável foi, depois de o ler de fio a pavio, constatar que o seu autor era, nem mais nem menos, o meu primito lá da capital. Com efeito, embora eu o desconhecesse, o Pedro gosta das bicicletas e, sendo um amante da natureza, fez uma incursão por terras de Monforte, descrevendo, num texto de rara beleza, os encantos da terra que ele, lisboeta de gema, afinal, também adora. E isso deixou-me tão feliz que não resisti à tentação de transcrever aqui esse maravilhoso texto (espero que o Pedro não se importe que o tenha feito sem a antecipada autorização), associando-lhe uma fotografia que fiz exactamente a partir da Mornegra, mais propriamente do alto das Talhinhas.

Obrigado, Pedro, pelo excelente trabalho com que enalteces esta lindíssima terra.

Um abraço enorme do Tino.

 

 

Na encosta do Castelo de Monforte

psardo:
Apenas 36 horas antes de partir abri a janela quase a dormir e não vi nem uma estrela. O ruído das luzes projectava-se a milhares de quilómetros e vedava ao olhos o prazer de contemplar tantas estrelas, não tantas quantas as que existem, mas ainda assim tantas que não consigo contar. Apenas 12 horas antes de partir bastou espreitar pela janela para as tentar contar, uma a uma, como se lhes conseguisse tocar, até adormecer.

24 horas antes de partir dois ou três, ou seriam quatro, ou muitos, condutores apressados abriram ruidosamente a porta do sono que dormia e fecharam-na bruscamente à minha passagem. Acordei e fechei novamente os olhos à procura da porta, agora inexistente. 1 hora antes da partir dois papa figos, pelo menos julguei que eram papa figos, e também julguei que eram dois, escoltaram-me de perto, muito perto, com melodias, lindas, até à porta do sono que dormia. Acordei e a porta ainda estava aberta, abri os olhos e olhei enquanto desaparecia suavemente ao som da mesma melodia, linda.

Comi, como sempre como, bebi um copo de sumo, como quase nunca bebo porque quase nunca vou pegar nela e partir. O leite cai-me sempre mal e costuma revoltar-se logo na primeira subida. Nos dias em que pego nela, tão poucos, quase nunca, bebo sumo, como quase nunca bebo.

Estavam 6 graus em Aguas Frias, onde a minha mãe nasceu há tantos anos, e a mãe da minha mãe há tantos mais, e a mãe da mãe da minha mãe há muitos mais, quando não havia bicicletas, nem carros, nem estradas, e Águas Frias era tão longe.

Passei ali os meus verões todos entre os seis ou sete anos e os dezasseis ou dezassete, três meses inteiros entre o fim da escola e o início da escola, e ali fui crescendo um bocadinho todos os anos. E ali tenho voltado todos os anos, sempre que posso, mas sempre menos tempo, sempre muito menos dias e muito menos noites, muito menos correrias pelos lameiros, a pé ou a cavalo, às descaradas ou às escondidas, muito menos.

Mas sempre que posso volto, e 36 horas antes de partir já imaginava as estrelas e os papa figos. Desta vez levei-a comigo, queria arejar, fugir do ruído das luzes e dos condutores apressados, inspirar fundo, muito fundo, expirar, sorrir imenso, olhar o céu, cheirar o frio, o estrume, a lenha a queimar, os campos verdes, a barragem, a terra, a geada, os castanheiros, as silvas, as gentes, as casas, as batatas, os enchidos ao fumeiro, a adega do meu avô.

Estavam 6 graus quando parei para tirar a primeira foto, passado já o cemitério onde dorme eternamente a mãe da mãe da minha mãe.

Ia mais ou menos com uma rota traçada, ainda que sem destino, sem pressa de voltar, apenas pelo prazer de ir e depois voltar, era a primeira vez que a levava a ela, ou que era ela a levar-me a mim, ali, não tão longe como há muito tempo era, mas onde ainda mandam os que lá estão, tal como há muito tempo, para lá do Marão.

Ia para Oeste até à mornegra, ia espreitar o cemitério dos bagos que espremi meses antes até darem o néctar que ia provar pela primeira vez poucas horas depois.

Depois subia para a barragem, contemplava aquele absoluto silêncio e continuava, agora para Noroeste, sempre a subir, até Curral de Vacas.

Em Curral de Vacas virava para Norte a caminho de Espanha. O que não sabia é que ia parar para contemplar este castanheiro, provavelmente tão antigo como a mãe da minha mãe, e para o guardar para sempre na minha memória.

Tal como imaginei, cheguei ao cruzamento para Paradela e Casas de Monforte, e virei para Nordeste.

Enquanto descia pelo alcatrão mal tratado e sentia na cara a brisa gelada com tanto agrado quanto uma criança sente o chupa-chupa a desfazer-se lentamente na boca, pensava porque raio a placa que indicava uma das últimas fugas antes de rumar a Espanha estava tão esburacada. Teria lá pousado uma perdiz, ou foi simplesmente um tiro em cheio no descarregar da frustração de um caçador, ou dois, ou três, que nesse dia não viram uma única perdiz, uma única lebre, como quase todos os dias não vêm já há tanto tempo?

Em Paradela ia agradecer à Nossa Senhora da Boa Viagem Aguas Frias já não ser tão longe e ia seguir quase até Casas de Monforte.

Imaginei que as ia ver pelo caminho, mas não sabia antes de partir que era ali, naquele lameiro, com Paradela em pano de fundo. Parei para as observar.

Depois, já apontado a Sul, sai novamente do alcatrão mal tratado, de ao pé das casas e das gentes e do fumo das lareiras e do latido dos cachorros e perdi-me um pouco pelos montes, para trás e para a frente, sempre a tentar um caminho novo, um atalho, um rigueiro, qualquer coisa onde coubessemos os dois. Pelo meio guardei um trilho muito pouco utilizado, mesmo muito pouco, e procurei de novo o rumo ao Sul...

... a caminho do Castelo de Monforte, que em tempos avistou as tropas de Napoleão, primeiro a vir, depois a ir. Foi ali que D. Dinis o quis, e ali o construi, dos sete que fez, o mais forte, o de Monforte!

Mesmo antes de chegar, para recordar a beleza daquele sítio e guardar a vontade de voltar, de voltar a pedalar.

E finalmente iria regressar, passando novamente o cemitério, pela estrada da Igreja, onde três dias depois iria assistir à missa, a última, do padre que tantos anos antes casou os meus pais e me batizou. Mas quando imaginei o meu percurso e imaginei que ali ia passar não o sabia. Nem quando lá passei.

E no fim, mesmo antes de chegar, mesmo por baixo do Castelo... Aguas Frias, a "minha" Aldeia.

Comi e bebi como quase nunca como e bebo, as coisas que as nossas próprias mãos fizeram. E assim foi e assim será se Deus quiser quando lá voltar.
Pedro Sardo

 

 



publicado por riolivre às 15:01
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Domingo, 14 de Março de 2010
Do Souto para a Lampaça

 

 

Despido de fohas e, obviamente, dos ouriços que o caracterizam e que, na altura própria, criam as tão saborosas castanhas, este imponente castanheiro, que cresce por detrás da casa do Quim Ruço, deixa que os nossos olhos alcancem, lá ao fundo, quase todo o bairro da Lampaça. Basta subir ao terraço do Quim para nos deslumbrarmos com a paisagem que, a partir daí, se pode disfrutar.

 



publicado por riolivre às 14:54
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
Águas Frias - O meu tropa deixou-nos

Nesta época de folia, própria para tanta gente se travestir e exteriorizar sentimentos que, noutras circunstâncias, não teriam oportunidade de conseguir, é duplamente trágico e doloroso abrir a porta a alguém que. logo pela manhã, se desloca propositadamente a nossa casa, bate à porta, e nos deixa cvompletamente atónitos. A pessoa, que eu não esperava àquela hora, disse bom dia, com ar muito entristado e, acto contínuo, disparou "o meu cunhado faleceu".

O choque foi enorme. Os meus olhos deixaram correr uma lágrima de dor. O Manuel, o meu tropa, o meu amigo de infância com quem partilhei uma boa parte da minha vida e que uma boa coincidência fez com que ambos tivéssemos vindo viver para Valpaços, acaba de nos deixar para sempre. Eu sei que é um lugar comum, mas quero repetir o que tantas vezes se diz, os bons vão embora muito mais depressa. Já o Caló e o Marinho tinham partido muito cedo. Também o Manuel não conseguiu passar dos sessenta. E Águas Frias acaba de perder mais um dos seus filhos.

Hoje, em vez das fotos que ontem fiz para vos mostrar um pouco da folia da nossa aldeia, deixem-me partilhar com todos os amigos e familiares do Manel e com todos os conterrâneos que tiveram oportunidade de com ele conviver, a dor que nos vai dilacerando.

Descansa em paz, meu amigo.


sinto-me: muito triste

publicado por riolivre às 16:08
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